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Publicado originalmente no Jornal Caiçara, de União da Vitória (PR) e Porto União (SC), onde fui convidado pelo primo Delbrai Augusto Sá em 2009 a escrever uma coluna sobre Psicologia que teve publicados 36 dos artigos que republico aqui, para quem gosta de ler e refletir. Tristemente, soube que o Caiçara Online deixou de existir, e ainda me pergunto sobre as razões disso.
Curiosamente
Daniel Ricardo Augusto Wood
Saudações, amigos de União da Vitória e leitores!
Conversando com o nobre Delbrai, filósofo e intérprete da vida e grande amigo, recebi com imensa alegria o convite para escrever para esta coluna, por razões que pretendo expor ao longo dos artigos que virão.
No exato momento em que escrevo, chove muito à minha janela; chove como chovia em certo trecho do “Curioso Caso de Benjamin Button”, esse belíssimo filme que trata das relações humanas sob o prisma de um conto de fadas, mas mostra como os momentos se entrelaçam e como as vidas humanas estão ligadas, como uma imensa teia – coisa que, aliás, a Internet veio demonstrar de maneira física e prática nos dias atuais, com o correio eletrônico e a “World Wide Web” – literalmente, Teia Mundial.
Benjamin, esse sujeito estranho à vida, vive a diferença: o fato de ser único lhe possibilita olhar o mundo de um modo que a maioria das pessoas não está acostumada a ver.
Por sua própria narrativa, termina a vida do mesmo modo que a começou, isto é, como veio ao mundo: desprovido de meios materiais; mas, também, com a alma limpa. O hinduísmo diz que a mente nublada não pode ver a verdade; essa é uma lição que, por si só, serve para guiar o ser humano na busca das coisas mais profundas.
Ver o outro como diferente – porque se sabe diferir do outro – é um ato que merece ser praticado. Nunca com um sentido de discriminação pejorativa, pois, em essência, somos mesmo iguais uns aos outros – dotados de 46 cromossomos e todo aquele DNA em células diplóides, dirá a biologia; isso, de certo modo, equivale a virmos todos de um mesmo Criador, que é o que dizem as religiões – e parece mesmo bastante equivocado pensar contrariamente.
Não é tanto questão de se opor ao outro; vê-lo, sim, como espécime que tem algo que nos é intrigantemente semelhante; mas, na prática, na manifestação, ímpar de maneira sublime, pois com aquele aprendemos sobre nós mesmos. A visão que tens de mim me ensina sobre ti; te ensina sobre mim; mas, se fizermos tudo certo, deverá lecionar-me sobre mim e fazer-te aprender sobre ti.
É porque podemos nos sentir como diferentes que há esse impulso a saber do que é feito esse outro, que parece às vezes se encontrar comigo em algum ponto desses mares que singramos pela vida. É aí que podemos ter a sensação de que somos iguais, sentados mesmo na sala de cinema, vivendo em assentos distintos uma experiência que parece a mesma – mas que não é, pois temos percepções desiguais e apenas fronteiriçamente adjacentes sobre o que aparece na tela. Isto é, podemos estar na mesma sala, mas não no mesmo lugar, pois vemos de ângulos diferentes. Parece que vemos ao mesmo tempo; mas não, pois a luz e o som – das imagens e do áudio do cinema – nos mandam mensagens que nos chegam em tempos que não são os mesmos; ainda que seja uma só mensagem, é percebida em tempos e espaços que se distinguem, além de serem elementos captados por seres viventes com experiências completamente distintas entre si, mas relacionadas.
Quantas vezes o leitor se pega, ao assistir um filme no cinema, com a sensação de perguntar a si quem é esse que senta a seu lado? Sua esposa? Seu marido? Filho, filha? Amigo, amiga? Um desconhecido que, como você, pagou pela entrada naquela sessão de um mesmo filme? Alguém que poderia ser seu amigo? Estará se sentindo triste ou alegre com o que vê?
Ontem, ao recomendar essa história cinematográfica, esse rico conto de fadas para alguns amigos, ouvi um comentário de alguém, dizendo que achava que não valia à pena, pois lhe haviam dito que era um filme “demasiado triste”.
Eu, particularmente, ri bastante em algumas ocasiões. Pelo menos sete, para falar a verdade. Em sete eu ri a bandeiras despregadas, e quem assistir saberá a que me refiro.
Percebi, claro, que existe um conteúdo dramático, denso, em alguns trechos do filme – aliás, o que faz uma película ser candidata ao prêmio máximo do cinema norte-americano, via de regra, é isso – sua carga dramática, a capacidade de fazer com que o ser entre na sala de cinema de uma maneira e saia dela depois de tomar algo como uma lavada, uma tempestade emocional, uma ducha que o faça refletir sobre a história contada. Por isso se chama a “sétima arte” – por ter algo de mistério e de perfeição, de uma capacidade de envolver alfabetizados e analfabetos (em seus variados graus) numa rica experimentação de eventos que nos movem para outros degraus da vida.
Acho mesmo que há filmes que não merecem – pelo menos a minha – atenção. Mas não é o caso desse, porque, justamente, mostra com relativa clareza que o ser humano é este ser bizarro, capaz de aprender na adversidade extrema, sempre tendo aberta para si a possibilidade de usar o mundo como lugar de fazer alma (que é o dizer de James Hillman: “O mundo é lugar de fazer alma”).
O vocábulo alma em grego significa psique, que também significa borboleta, e também significa o vento que move as asas da borboleta. Sob esse aspecto, psicologia é o discurso da alma, o desenho, a trajetória que faz a borboleta ao sabor do vento, bailando com sua imensa e sutil beleza através das paisagens da vida.
26/02/2009
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